sábado, 9 de fevereiro de 2013

E._10.º_n.º 18









Cimas ao Crepúsculo

Eu quero uma existência fulgurante;
Mover-me livre sobre o livre céu!
Quero a glória épica de Dante
E os amores sublimes de Romeu...

Eu quero lapidar diamantinos versos
E engastá-los no bisel desta paixão;
Transmigrar para outros universos,
Regressar a teus pés com devoção...

Eu quero dedicar-me ao sacerdócio
A que se devotou Luís Pasteur.
Não dar trégua, um só momento de ócio,
Ao morbus, à epidemia e ao malheur.

E também, por capricho, gostaria
De ser um fanático dervixe!
Transcendente oração eu rezaria
Aos teus olhos – minha Meca! - de azeviche..

Eu quero, numa cisma singular,
Conceber, nas vastidões do crânio,
A fórmula ideal p'ra me tornar
Omnipresente, multímodo, instantâneo!

E surgir, sob as formas mais diversas,
Em vários tempos, muitas latitudes!
Ser Cambises à frente dos seus Persas
E S. Francisco, espelho de virtudes!

Eu quero uma existência que transcenda
O Deve-Haver, os secos-e-molhados,
O florir obsceno da comenda
Nos peitos de algodão enchumaçados...

E o que mais queria, ó lusitana raça,
Quando da vida me fosse por uma vez,
Era ser, na histórica Alcobaça,
O jacente Pedro ao pé de Inês!

Alexandre O’Neill, Poesia Reunida 
 Trabalho - aqui








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