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sábado, 9 de fevereiro de 2013

E._10.º_n.º 27



fotografia do desenho






A Balada de Neve

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim...

É talvez a ventania;
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento, com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudade, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
de uns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
- depois em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos... enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza...
– e cai no meu coração.


Augusto Gil, Luar de Janeiro




E._10.º_n.º 26






No dia brancamente nublado entristeço quase a medo

No dia brancamente nublado entristeço quase a medo
E ponho-me a meditar nos problemas que finjo...

Se o homem fosse, como deveria ser,
Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais,
Animal directo e não indirecto,
Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às coisas,
Outra e verdadeira.
Devia haver adquirido um sentido do «conjunto»;
Um sentido, como ver e ouvir, do «total» das coisas
E não, como temos, um pensamento do «conjunto»;
E não, como temos, uma ideia do «total» das coisas.
E assim — veríamos — não teríamos noção de conjunto ou de total,
Porque o sentido de «total» ou de «conjunto» não seria de um «total» ou de um «conjunto»
Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes.

O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as coisas — eis o erro e a dúvida.
O que existe transcende para baixo o que julgamos que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.
O Universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos.
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade.
Mas, como a essência do pensamento não é ser dita, mas ser pensada,
Assim é a essência da realidade o existir, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas,
E antes de ditas, pensadas:
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias
Na negação oposta de afirmarem qualquer coisa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim...

1-10-1917
“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa

·         Arquivo Pessoa. Obra Édita
http://arquivopessoa.net/textos/344   [14.2.2013;19h 16m)




E._10.º_n.º 25







Aniversários


As abelhas não fazem anos.
Nenhuma viveu um ano
Para o poder fazer.
Com um dia de vida
Qualquer abelha vai trabalhar.
Com dois já pode namorar
E com cinco casa e tem filhos.
Com vinte dias de vida
Uma abelha está acabada:
É uma avelha.

Micróbios, como as amibas,
Vivem menos de um segundo
E nesse segundo também
Cabe uma vida inteira,
Cheia de tudo o que uma vida tem.
Passa tudo tão depressa
Que não chegam a ter idade.
Não fazem anos, nem meses,
Nem dias, nem minutos, nem segundos.
Fazem milésimos de segundo
- Uma eternidade.

As tartarugas fazem muitos anos,
Mas devagarinho.
Sei de uma que faz hoje anos
E ainda vem a caminho.
Quando chega aos anos que fez,
Os anos já lá não estão.
Às vezes já falta pouco
Para os fazer outra vez.
Qual era a pressa? O que é isto?
Pergunta ela, espantada.
Os anos são um vento que nos mata
Sem darmos por isso.
Não servem para mais nada.
Quanto mais os fazemos
Mais eles nos fazem a nós.
É preciso ver que depois morremos
E não há mais nada a fazer.
Estamos feitos.

Os mortos desfazem anos.
No dia do seu aniversário
Faz anos que não fazem anos.
Fazem não anos,
Que são anos que não se fazem.
E quantos mais não fazem
Mais se afastam da sua antiga vida.
Mais não são vivos.

Os anões são tão pequeninos
Que não fazem anos.
Fazem aninhos.
Os gigantes são tão grandalhões
Que não fazem anos.
Fazem anões.

Um segundo é uma hora
E uma hora é um segundo
No relógio alucinado da paixão.
Não há tempo nesse tempo.
Quem ama nunca sabe
As horas que são.
E as horas também não sabem
Onde os amantes estão.
No relógio alucinado da paixão
O tempo pára, retrocede, avança.
Não está parado nem está em movimento.
Está perdido mas não está perdido.
Como tu, que amas, apenas dança.

Os anos que fazemos
Também nos fazem a nós.
Os anos que fizemos nos fizeram.
Os anos que faremos nos farão.
É de anos que somos feitos,
De breve e misterioso tempo.
Em nós estão os anos que já fomos.
Esses anos que fizemos, somos nós,
Do cimo da cabeça até à ponta dos pés.
Quanto tempo é?
Quantos anos são?
De que é feito o tempo que nos faz?
Quanto tempo há?
Para onde vai o tempo que já foi?
Onde está o tempo que virá?



Álvaro Magalhães, O brincador 
Trabalho - aqui



E._10.º_n.º 24









Verso 1

Presenciei momentos aflição,
estive presente em cada oração,
cada vez que partiram o teu coração
Os teus homens nunca te deram valor,
tua dor por amor esteve sempre presa a tua alma
Aí Deus enviou-me pra te proteger,
afastar o mal do teu caminho
nas minhas asas o teu ninho esteve sempre bem quentinho
Mas ai eu me apaixonei por ti e não aguentava mais.
Por isso estou aqui.

Coro

Desisti de ser anjo, asas para o lixo,
prefiro ser um simples humano só pra poder estar ao teu lado
Pra te fazer esquecer de todos os outros que te fizeram sofrer,
te fazer sorrir e te amar.

Verso 2

Não tenho outra tarefa na terra,
vi exclusivamente pra te amar baby
Como as flores que eu deixei no paraíso,
este amor, eu vou regar todos dias baby
Sei que é difícil tu te deixares navegar nos meus mares,
sei que haverá tempestades
Mas eu nunca vou abandonar o barco,
estarei sempre aqui.

Coro 1x

Ponte

Já não posso voar mas vou te levar ao céu,
fazer-te sentir as nuvens debaixo dos pés e o
 sol mais próximo para iluminar os teus caminhos
Baby sei que tu tens medo de me deixar entrar
pra depois na manhã seguinte eu te abandonar
Mas eu vim pra ficar e vou estar sempre aqui.

Coro 2x

Desisti de ser anjo, asas para o lixo,
prefiro ser um simples humano só pra poder estar ao teu lado
Pra te fazer esquecer de todos os outros que te fizeram sofrer,
  te fazer sorrir e te amar. 

G2-ANJO APAIXONADO




E._10.º_n.º 23




fotografia do desenho







Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa


E._10.º_n.º 22






A Tragédia Da Nossa Paixão

Da última vez que nos fizemos
Eu chorei tanto
Que não consegui verter uma única lágrima
Olhei para ti e percebi
A tragédia da nossa paixão
Ela reside no facto de nos entendermos demasiado bem
Para irmos além
Além de uma cama feita
De uma mesa da sala
Ou talvez do chão da cozinha
Arruinando assim o nosso entendimento
Com uma falaciosa noção de intimidade
Pois nunca precisámos de uma simples palavra
Nunca precisámos da companhia do outro
Nunca precisámos de tempo
E nunca precisámos mais do que um mero olhar
Para nos compreendermos
Sempre

Como jamais dois seres humanos terão conseguido
Quero-te sempre
Sempre
Estejas tu onde
E com quem estiveres
A intimidade é falaciosa
E tantas vezes sobrevalorizada

Carlos Nobre (Algodão), 
álbum Uma Falaciosa Noção de Intimidade

Trabalho - aqui